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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

Notícias/Geral

Violência do crime organizado na região de fronteira gera temor na população

Estudantes brasileiros que moram no Paraguai contam que não saem à noite e nova prefeita só anda de carro blindado

Violência do crime organizado na região de fronteira gera temor na população
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A guerra entre facções criminosas na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Mato Grosso do Sul, tem causado temor na população que reside na região. 

Após o ataque que resultou na morte do prefeito de Pedro Juan Caballero, José Carlos Acevedo, e o recente atentado contra o filho de um ex-prefeito de outra cidade paraguaia, a fronteira tem estado mais tensa, e isso tem gerado temor na população.

Estudantes brasileiros que fazem faculdade no Paraguai contam que é prática comum entre eles não saírem durante a noite e circular o mínimo possível em Pedro Juan Caballero, justamente pela sensação de insegurança que a região traz.

O universitário Renan da Silva Cardoso, 29 anos, que faz medicina na Universidade Central do Paraguai (UCP) há três anos, contou que tem “medo de estar no lugar errado” e na hora errada e se tornar uma vítima.

“Não entro no Paraguai durante a noite, só vou para o Paraguai para ir à faculdade e depois volto para casa. A gente sabe que geralmente só acontece alguma coisa com quem mexe com coisa errada, mas tenho medo de estar no lugar errado”, declarou o estudante.

Segundo ele, após o crime contra o prefeito da cidade paraguaia, os pais teriam pedido para que ele não ficasse em Pedro Juan Caballero além do horário da faculdade. O rapaz saiu de Xinguara, no Pará, para estudar medicina na fronteira, mas mora do lado brasileiro.

A mesma situação é relatada por outros colegas de Renan. A estudante Tailla Milena Alves da Costa também disse que teme ficar na cidade paraguaia. “Tenho medo de sair [à noite], a gente sabe que pode ser vítima de bala perdida, então evito ficar saindo à noite”, contou a jovem, que mora em Pedro Juan Caballero.

A jovem é de Três Lagoas, mas está no Paraguai há três anos. Segundo ela, só tem o costume de sair para ir ao mercado, além da universidade. 

“[A cidade] está mais tensa [depois do atentato contra o prefeito], temos visto polícia na rua com mais frequência. Depois do atentado, meus pais me ligaram para saber se eu estava bem e pediram para ter mais cuidado e evitar sair à noite”, contou.

“Eu acho muito perigoso aqui, tomo muito cuidado com quem ando, dá medo porque morre muita gente, todo dia tem alguém sendo morto”, declarou Lorena Martins, 20 anos, que mora na fronteira desde 2019. Ela e o pai estão morando na região porque ambos fazem medicina na UCP, porém, estão tentando transferir para alguma instituição brasileira. 

A mais tempo morando no Paraguai, a estudante Laura Luisa Martins, de 23 anos, afirma que sentiu que a violência cresceu nos últimos anos. Segundo ela, recentemente houve um atentado próximo da casa onde ela reside, em Pedro Juan Caballero.

“Madrugada passada mesmo, eu estava em casa e ouvi tiros, depois fui ver e tentaram matar um rapaz aqui perto da minha casa”, conta a jovem, que mesmo com esses relatos, não pensou em transferir a faculdade para o Brasil.

“Aqui é muito perigoso, mas se você souber com quem você anda, se não mexer com coisa errada. Você tem de saber aonde você vai e com quem vai, porque aí é tranquilo”, garante a jovem.

Ela ainda completa dizendo que, apesar de morar em Pedro Juan Caballero, só tem costume de sair em Ponta Porã. “Por questão de escolha e porque tenho medo”, diz a jovem ao ser perguntada do motivo.

Segundo a assessoria de imprensa da UCP, a faculdade ainda não teve pedido de transferência, cancelamento de matrícula ou queda de alunos após o ataque contra o prefeito, entretanto, neste segundo semestre, começam as matrículas para um novo período e só aí a instituição saberá o real reflexo da violência na universidade.

PREFEITURA

Depois que José Carlos Acevedo sofreu um atentato, sendo atingido por sete tiros na saída da prefeitura, a região passou a ser mais vigiada por policiais paraguaios. 

Segundo fontes do Correio do Estado, a nova prefeita, Carolina Yunis de Acevedo, só tem transitado pela cidade em um carro blindado e a segurança dentro da prefeitura é feita por homens armados.

Durante entrevista ao Ponta Porã News, a nova chefe do Executivo municipal afirmou que é muito difícil e doloroso ocupar a posição neste momento.

“É muito difícil e doloroso porque fomos eleitos para o mesmo período e estava melhor para lhe dar todo o suporte para tudo que ele vinha sofrendo na política. Sentar hoje aqui é muito doloroso e de muita responsabilidade”, declarou a prefeita ao site do interior. Ela foi eleita como vereadora e por ser a presidente da Câmara Municipal de Pedro Juan, assumiu o lugar deixado por José Carlos.

Carolina é casada com o irmão de José Carlos Acevedo, Ronald Acevedo, governador do departamento de Amambay. A filha dela, Haylee Carolina Acevedo Yunis, foi morta em outubro do ano passado também durante um atendado. Outras três pessoas que estavam com a jovem também foram mortas.

De acordo com fontes da reportagem, além de Carolina, outras autoridades da cidade também estão circulando pela cidade com carros blindados por segurança.

Depois do atentado de domingo, em que cinco pessoas ficaram feridas, um deles era Júlio Cesár Velazquez Penaderi, filho de ex-prefeito do município paraguaio de Zanja Pytã, Ramón Velázquez Marí, a segurança da fronteira foi novamente reforçada e na segunda-feira houve um aumento de efetivo e dezenas de postos de controle da polícia foram criados na cidade.

LADO BRASILEIRO

Segundo o titular da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Antônio Carlos Videira, o incremento no efetivo da polícia da região fronteiriça continua, porém, sem a mesma intensidade de 15 dias atrás, quando o aumento no número de agentes ultrapassava 50%.

Videira afirmou que manteve o reforço policial na região por meio da Operação Hórus, mas uma parte dos policiais retornou aos seus postos. Entretanto, a intercambialidade do setor de inteligência permanece enquanto as autoridades do Paraguai necessitarem.

“A inteligência tem prestado apoio nas diligências em território brasileiro, todas [as diligências] que necessitam ser feitas do lado brasileiro nós temos feito. Temos mantido essa sintonia porque crimes praticados dos dois lados abalam toda a região. Existe uma disputa por território por organizações criminosas, e essa disputa tem criado sensação de insegurança na região, por isso a necessidade de manter o reforço no lado brasileiro”, declarou Videira.

O secretário salientou que apenas a polícia na rua será possível de evitar que novos crimes como esse aconteçam com frequência. “[A maneira de conter é], principalmente, intensificando o policiamento ostensivo na linha de fronteira, policiamento preventivo e ostensivo”.

Videira afirmou que não há prazo para que as ações conjuntas e o aumento do efetivo permaneçam na região.

FONTE/CRÉDITOS: DAIANY ALBUQUERQUE - Correio do Estado
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